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ARTIGOS

SEGUNDO DOMINGO DO ADVENTO (07.12.14) Mc 1, 1-8

“Começo do Evangelho de Jesus, o Messias, o Filho de Deus”

            O Evangelho de Marcos foi o primeiro dos quatro evangelhos canônicos a ser escrito, provavelmente pelo ano 70, ou na Síria, ou em Roma (Não existe consenso entre os peritos). Marcos tem o grande mérito de ser o criador desse gênero literário, hoje tão conhecido, chamado “Evangelho”, o que literalmente significa “Boa Nova” ou “Boa Notícia”. Porém, quando no primeiro versículo da sua obra ele se refere ao “começo do Evangelho”, ele não se refere ao gênero literário, mas à própria Boa Nova, que é a mensagem de salvação em Jesus, “o Messias, o Filho de Deus”. Pois, o escrito é somente uma das maneiras viáveis para comunicar a experiência dessa Boa Notícia, - tanto que Paulo, que nunca leu um dos quatro Evangelhos (pois morreu pelo ano 66,) pôde falar aos Gálatas do “Evangelho por mim anunciado” (Gl 1,11). Por isso, devemos sempre levar em conta que os quatro Evangelhos do Novo Testamento não se propõem a nos dar uma biografia de Jesus, nem de fazer um relatório sobre a vida d’Ele. Eles são a “Boa Notícia” de Jesus. Por isso, a pergunta que devemos ter em mente em primeiro lugar ao ler ou ouvir um trecho evangélico não é “aconteceu assim ou não?”; mas, “onde está a Boa Notícia de Jesus neste texto?”

            Como parte da nossa preparação para o Natal, o texto de hoje nos apresenta a pessoa e mensagem de um dos grandes personagens da liturgia do Advento – João, o Batista. Usando uma mistura de citações do Antigo Testamento, tiradas do profeta Malaquias 3, 20, de Isaías 40, 3 e Êx 23, 20, Marcos enfatiza o papel de João como Precursor - aquele que prepara o caminho do Senhor. O fato de João estar vestido com pele de camelo faz uma ligação entre ele e o “pai do profetismo”, na tradição judaica, Elias. Assim, João é a última voz profética da Antiga Aliança, anunciando a chegada da Boa Nova na pessoa e atividade de Jesus de Nazaré.

            O batismo de João era um rito conhecido naquele tempo. Significava o reconhecimento dos pecados e a conversão aos caminhos de Deus. Embora o Advento não seja primariamente tempo de penitência, mas de preparação, o texto nos lembra que não será possível a preparação para a vinda do Senhor no Natal, sem que passemos pelo processo de arrependimento, conversão e pela experiência da gratuidade de Deus no perdão dos pecados.

            Mas a ênfase mesmo está na aceitação não somente do batismo de João, mas de quem viria depois dele, literalmente como ele disse, “atrás de mim”. A expressão, que denota a dignidade de quem vem atrás, como num cortejo, põe toda a importância na pessoa que vem - pois tirar as sandálias era serviço de um escravo. Jesus é o mais importante, pois com a vinda d’Ele inaugura-se o tempo de salvação, esperado naquele tempo por muitas pessoas e grupos (como os Essênios) somente para o fim dos tempos.

            A voz de João ressoa de novo hoje, convidando a todos nós, pessoalmente e em comunidade, Igreja e sociedade, a preparar os caminhos do Senhor, endireitando as suas veredas! A preparação para o Natal implica a necessidade de um empenho de todos para que os males, sejam individuais ou sociais, sejam tirados, para que o Natal seja experiência real da vinda do Salvador e não somente uma festinha, vazia de sentido.


TERCEIRO DOMINGO DE ADVENTO  (14.12.14)

Jo 1, 6-8. 19-28

“Aplainai o caminho do Senhor”


            Novamente a figura central do Evangelho de um domingo do Advento é o Precursor, João Batista. Essa vez, em um texto tirado do Evangelho do Discípulo Amado, o Batista é apresentado como testemunha de Jesus. Ele assume a identidade de quem veio gritar “Aplainai o caminho do Senhor”, usando uma frase tirada de Isaías 40, 3. No texto de Isaías, essa frase é usada para preparar o Novo Êxodo, a volta dos exilados do cativeiro na Babilônia, no início do tal chamado “Livro da Consolação de Israel” (Is 40-55). A mensagem de João Batista também prepara o povo para um evento de grande alegria - a vinda do Messias, Jesus de Nazaré!  Um novo, e mais definitiva Êxodo acontecerá através do evento salvífico de Jesus.

            Nesse texto, já no primeiro capítulo do Evangelho de João, entram em cena os que serão mais tarde os adversários de Jesus - as autoridades dos judeus. Embora, às vezes, no Quarto Evangelho o termo “os judeus” designe o povo de Israel em geral (Jo 3, 25; 4, 9.22 etc), aqui, como na maioria das vezes, o termo significa os representantes de um mundo que não compreende, e eventualmente hostiliza, Jesus. Nesse sentido, ele caracteriza especialmente as autoridades religioso-políticas do judaísmo da época - os sacerdotes, fariseus e escribas. Nunca devemos usar este Evangelho, como foi feito com certa frequencia no decorrer da história, para hostilizar o povo judeu como tal

            Atrás do texto também dá para entrever a tensão que existia no ambiente em que se escreve o texto entre os seguidores de João Batista e de Jesus. Por isso, a insistência no texto em informar que João “não era o Cristo”, mas testemunha do fato de que Jesus era o enviado de Deus.

            No mais, o Evangelho retoma a mensagem do domingo passado (Mc 1, 1-8) - um convite para que todos nós preparemos o caminho do senhor. “Aplainai o caminho do Senhor” significa facilitar a sua chegada entre nós, tirando de nossa vida tudo que possa impedir um encontro real com Jesus. No nível individual, aqui há um convite para uma conversão pessoal, que é um processo contínuo na vida de todos nós. Mas também há o desafio para que nos empenhemos na luta contra tudo que possa diminuir a vida humana - tudo que causa sofrimento aos nossos irmãos e irmãs. Pois, o pecado que existe no mundo não é somente pessoal, mas também social - muito mais do que a soma dos erros individuais. O pecado social se manifesta nas estruturas sociais injustas e opressoras, claramente denunciado na atualidade pelo Papa Francisco e pelo ensinamento social da Igreja, que tiram de tanta gente a dignidade dos filhos de Deus. A voz do Precursor, como a de Isaías, quinhentos anos antes dele, nos desafia para que a nossa conversão pessoal também se manifeste no esforço para a construção de um mundo mais digno, justo, humano e fraterno - o mundo que Jesus veio estabelecer. Isso exige envolvimento na política, pastorais sociais, organizações em prol do povo, debate sobre políticos públicos etc.  Pois a nossa fé deve nos levar à ação, como impulsionou Jesus, para que os valores do Reino cresçam entre nós.


QUARTO DOMINGO DO ADVENTO  (21.12.14)

Lc 1, 26-38

“Faça-se em mim segundo a tua palavra”

 

            Maria de Nazaré é a terceira figura importante nas leituras do tempo do Advento. O texto de hoje é riquíssimo, e mereceria um tratamento muito mais pormenorizado. É essencial para entendermos a figura de Maria tal como apresentada nas Escrituras.

            No esquema de Lucas, a anunciação à Maria se contrapõe àquela feita a Zacarias (Lc 1, 5-22). Ambos os textos seguem os passos costumeiros da forma literária “anunciação” j;a conhecida no Antigo Testamento.  Há muitas semelhanças (Anjo Gabriel, confusão na parte do/a recipiente, anúncio de um nascimento, perlexidade etc), mas no primeiro relato, é feita a um sacerdote, idoso, no Templo. No texto de hoje, à uma moça, jovem, no dia-a-dia de um lugarejo, Nazaré. O sacerdote duvidou e ficou mudo, simbolizando que os ritos do Templo não têm mais nada a dizer! Maria acredita e é proclamada “bendita entre as mulheres” (1, 42).

            Infelizmente, muitas vezes este trecho é interpretado de maneira a nos apresentar uma Maria totalmente passiva, sem expressão - e ideologicamente foi usado para insistir que as mulheres, no mundo e na Igreja, deveriam ficar passivas e sem expressão! Tal interpretação distorce totalmente o que Lucas quer nos dizer!

            Maria, embora não entenda plenamente (Lc 1, 29; 2,19; 2, 50s) aceita não somente ser instrumento da vontade de Deus, mas ser protagonista da realização desse plano divino. A frase “faça-se em mim” não deve ser interpretada de uma maneira passiva, mas como o grito de entusiasmo de quem quer ser colaboradora na realização do projeto que Deus tem para o mundo. Não se refere somente ao fato de engravidar - isso seria muito pouco - mas à grande visão de Deus para os seus filhos e filhas. Um pouco adiante Lucas vai mostrar o alcance dessa frase, quando na boca de Maria ele coloca o grande canto de libertação, que é o Magnificat! Não é possível entender a profundidade da frase de Maria na anunciação sem ler também o Magnificat (1, 46-55). O que é que Maria quer quando ela pede que seja feita a vontade de Deus nela? Ela quer a realização da vira-volta no mundo que é o Advento do Reino de Deus, quando Deus vai “dispersar os homens de pensamento orgulhoso; precipitar os poderosos dos seus tronos e exaltar os humildes; cobrir de bens os famintos e despedir os ricos de mãos vazias” (1, 51-53).

            Em um mundo onde a realidade é a prepotência e a violência dos poderosos contra pobres e indefesos, e onde as mulheres muitas vezes estão na liderança da resistência, Lucas nos apresenta Maria como protagonista da concretização do Reino. Como ela, quem realmente quer receber o Salvador no Natal deve comprometer-se de uma maneira concreta na construção de um mundo novo, de justiça e fraternidade, tão contrário ao que vivemos hoje em tantos lugares, e que Maria canta no primeiro capítulo de Lucas.

 

NATAL: MISSA DA NOITE - 24 dezembro 2014

Lucas 2,1-20

 

            Esta passagem é típica do estilo de Lucas, e contém muito material peculiar a ele. Ele toma as tradições de que Maria e José eram de Nazaré e que Jesus nasceu em Belém, liga-as com as figuras de Augusto, Herodes o Grande e o Governador Quirino, e através destas figuras tece um texto que une oito dos seus temas favoritos: “comida”, “graça”, “alegria”, “pequenez”, “paz”, “salvação”, “hoje”, e “universalismo”. Lucas é um verdadeiro artista das palavras evangélicas!

            Este trecho pode ser subdivido assim:

            1) O contexto histórico e o nascimento de Jesus - 2, 1-7

            2) Pronunciamentos angélicos explicando o sentido de Jesus - 2, 8-14

            3) Respostas aos pronunciamentos dos anjos - 2, 15-20

            A chave para a compreensão do texto se acha nos versículos 11-14. Aqui Lucas apresenta Jesus como o Messias davídico que trará o dom escatológico de paz, o Shalom de Deus. Assim ele faz contraste com a figura de César Augusto. Na impotência da sua infância, Jesus é o Salvador que traz a verdadeira paz, em contraste com o poderoso Augusto, que era celebrado no culto oficial imperial como o fundador de um reino de paz, a “Pax Romana”. O “Shalom” é na verdade o contrário da “Pax Romana,” como hoje seria o oposto da pretensa “paz” imposta pelos canhões e bombardeiros da força militar prepotente - a “Pax Americana!”. Esta revelação da parte dos anjos é recebida e aceita pelos humildes pastores, e meditada por Maria, modelo de fé, e os discípulos, que terão que meditar e aprofundar o sentido de Jesus para eles, sem cessar!

            Desde a Idade Média o presépio tem mantido o seu lugar como um dos símbolos mais caros aos cristãos. Porém, é bom não deixar que a cena do nascimento de Jesus se torne uma cena somente sentimental, com lembranças saudosas da nossa infância! O relato quer sublinhar a opção de Deus que se encarnou como pobre, sem as mínimas condições para um parto digno. Em nossos presépios, até o boi e o asno tomaram banho, antes de serem colocados! A realidade de nascer em uma gruta ou estrebaria era diferente! Jesus nasce em condições semelhantes a milhões de pobres e excluídos pelo mundo afora, nos dias de hoje! É mais uma manifestação da fraqueza de Deus, que é mais forte do que os homens! (1Cor 1, 25).

            Diferente de Mateus - que tem outros interesses teológicos - os protagonistas desta cena são os pastores. Na época, eles eram considerados pessoas desqualificadas, marginais, sujos, ritualmente impuros. Mas é para essa gente que os anjos revelam o sentido do acontecido e são eles os primeiros a encontrar Jesus recém-nascido. Assim, em Lucas, são pessoas à margem da sociedade que testemunham o nascimento de Jesus, e igualmente são pessoas desqualificadas que são as testemunhas da Ressurreição - as mulheres! Lucas não perde uma oportunidade para destacar a opção preferencial de Deus pelos pobres e humilhados!

            O trecho continua com mais três ênfases tipicamente lucanas - “não ter medo”, “sentir e expressar alegria” e o termo “hoje”. Os ouvintes poderão ter coragem e alegria, porque a salvação de Deus irrompe no mundo “hoje” - não em data futura distante. Esta ideia volta diversas vezes - na sinagoga, depois de fazer a leitura de Isaías, Jesus dirá que “hoje cumpriu-se essa passagem” (4, 21); ao condenado na cruz, Jesus garante que “hoje estará comigo no paraíso” ( 23, 43). O reino da salvação está sendo inaugurado, e por Jesus, na fraqueza da exclusão social, e não por César, com toda a pompa da corte e das armas! Em uma manjedoura, e não em um palácio imperial! Por parte de quem carece de força e prestígio, e não pelos poderosos e fortes do mundo!

            Os pastores não somente testemunham a presença do recém-nascido em Belém, mas anunciam o que disseram os anjos (v. 17). Essa Boa-Notícia complementa o que foi já anunciado à Maria em 1, 31-33, por Maria em 1, 46-45, e por Zacarias em 1, 68-79. É muito significante o termo que Lucas emprega para descrever a reação de Maria:

            “Maria, porém, conservava todos esses fatos, e meditava sobre eles em seu coração” (v. 19)

            Aqui Lucas retrata, através de Maria, a atitude do/a discípulo/a diante dos mistérios de Deus, revelados em Jesus - Maria não capta o significado pleno dos eventos e os rumina no seu íntimo. A ideia volta de novo em Lc 2, 51:

            “Sua mãe conservava no coração todas essas coisas”.

É uma maneira de apontar para a caminhada de fé que Maria trilhou - e que todos nós, que não captamos o sentido pleno da ação de Deus em nossas vidas, teremos que andar.

            O texto encerra afirmando que os pobres e marginalizados - personificados nos pastores - “voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que haviam visto e ouvido” (v. 20). Qualquer celebração de Natal que não seja para os sofridos motivo para alegria, coragem e louvor a Deus, pode ser tudo, menos uma celebração cristã!

 

Dia do Natal - Missa do Dia - 25 dezembro 2014

“E a Palavra se fez carne e habitou entre nós”

João 1, 1-18

 

                        Comunicação é atividade primordial de toda a humanidade, e o seu instrumento privilegiado é a palavra. Diariamente somos sujeitados a uma enxurrada de palavras, que muitas vezes servem para ofuscar a verdade, e desvirtuar a justiça, funcionando como instrumento de opressão, em lugar de solidariedade humana. Assim, é bom iniciar a nossa reflexão com uma consideração sobre o conceito que está atrás do termo “Palavra”.

                        Obviamente, a primeira referência para nós é a Palavra de Deus, com destaque para a sua Palavra comunicada através da Sagrada Escritura. No Antigo Testamento, o tema da Palavra Divina não é objeto de especulação abstrata, como é o caso com outras correntes de pensamento, por exemplo, o “Logos” dos filósofos alexandrinos. É antes de tudo um fato experimental: Deus fala diretamente aos homens e mulheres, ao seu povo e a toda a humanidade.

            A Palavra de Deus é comunicação, auto-expressão e acontecimento salvífico. Por isso, podemos afirmar que a própria criação assinala o começo da história da auto-comunicação e ação salvadora de Deus. Assim, podemos afirmar que a Palavra de Deus pode ser considerada sob dois aspectos, indissociáveis mas distintos: ela revela e ela age. Ela revela quem é o verdadeiro Deus, pelo que ele faz. O Deus dos hebreus não é o deus dos filósofos, distante, imutável, objeto de estudo e fria análise, mas um Deus que se revela na ação da sua Palavra criadora, congregadora e libertadora. Isso fica claro no texto que podemos considerar a chave de toda a Escritura, pois o resto da Bíblia é consequência daquilo que ela revela: “Eu vi muito bem a miséria do meu povo que está no Egito. Ouvi o seu clamor contra seus opressores, e conheço os seus sofrimentos. Por isso, desci para libertá-lo do poder dos egípcios” (Êx 3, 7-8).

            Esse “descer” do Deus bíblico tem seu auge na Encarnação, como lemos no Prólogo do Quarto Evangelho, no nosso texto de reflexão: “No início era a Palavra, e a Palavra estava com Deus... e a Palavra era Deus... e a Palavra se fez carne e armou sua tenda no meio de nós” (Jo 1, 1.14).

             O projeto de Deus acontece quando essa palavra se fez homem, armou a sua tenda (ou acampou) entre nós. O verbo grego usado “eskênôsen” deriva-se do termo “skêne, que significa uma tenda de campanha. Na visão do Quarto Evangelho, a Palavra, o Verbo Divino, “armou sua tenda” no meio da humanidade, não “ergueu o seu Templo!” Templo é fixo, tenda é móvel, ou seja, aonde anda o povo, lá estará a Palavra Viva de Deus, encarnada na pessoa e projeto de Jesus de Nazaré. Nele e por ele a Palavra age, operando a salvação aqui na terra. Podemos afirmar que o mistério da Palavra tem agora como centro a pessoa de Jesus Cristo, inseparável da sua missão e projeto.

            Mas, essa encarnação tornou-se o divisor das águas para a humanidade. Pois, “veio aos seus e os seus não a acolheram”. Assim o nosso texto desafia qualquer acomodação que porventura possa existir entre os cristãos, pois “acolher” a Palavra Encarnada não é em primeiro lugar uma crença intelectual, mas o assumir de um projeto de vida, o seguimento de Jesus de Nazaré. É uma adesão radical à pessoa e missão de Jesus, continuada em nós hoje. Como diz o Evangelho de Mateus, “nem todo aquele que me disser “Senhor, senhor!” entrará no reino de Deus, mas aquele que cumprir a vontade de meu Pai do céu” (Mt 7, 21). O nosso texto nos anima para que não esfriemos no seguimento de Jesus, e nos assegura: “Aos que a receberam, os tornou capazes de ser filhos de Deus, os que creram nele, os que não nasceram do sangue, nem do desejo da carne, nem do desejo do homem, mas de Deus” (Jo 1, 12s).

            Porém, a tomada de consciência de Jesus da sua missão, da sua identidade, não foi algo automático. A Epístola aos Hebreus enfatiza claramente o processo pelo qual Jesus passou, quando diz: “Embora sendo Filho de Deus, aprendeu a ser obediente através dos seus sofrimentos” (Hb 5, 8).

            Vale a pena lembrar que o sentido mais profundo do termo “obediente” vem do Latim “ob-audire”, que é escutar ou ouvir a vontade e Deus - e pô-la em prática! Ou seja, é mais uma obediência profética, (fazendo da vida de Jesus uma expressão viva da Palavra e Vontade de Deus), do que meramente disciplinar, como muitas vezes foi na prática nossa. Dentro desse processo, não há dúvida que a Palavra de Deus nas Escrituras judaicas teve um lugar de destaque para Jesus. Durante trinta anos, Jesus alimentou a sua espiritualidade, a sua fé, nas mesmas fontes do povo sofrido do interior de Palestina - na espiritualidade dos “Anawim”, os “Pobres de Javé”, que davam destaque especial para Segundo e Terceiro Isaías, e Segundo Zacarias que fomentavam esperança e coragem, afirmando a presença de Javé Libertador entre os pobres e aflitos, (p. ex: os Quatro Cantos do Servo de Javé, Is 42, 1-9; 49, 49, 1-9ª; 50, 4-11; 52,13-53,12; Is 61, 1-11; Zc 9,9-11 e Sf 3,11-13). Foi no confronto entre a Palavra de Deus, transmitida nas escrituras através dessas vozes proféticas, e a realidade dura do seu povo sofrido e explorado, que Jesus clareou e concretizou a sua identidade e missão, fazendo com que, segundo Marcos, a prisão de João fosse o sinal para que ele assumisse o manto profético messiânico, não conforme a expectativa da sociedade, mas dentro da visão dos pobres de Javé: “Depois que João Batista foi preso, Jesus voltou para a Galileia, pregando a Boa Notícia de Deus” (Mc 1, 14s).

            Assim, nós também temos que ler esse e qualquer texto bíblico em diálogo com a realidade do nosso povo - mas de maneira especial do povo excluído, sofrido e marginalizado, como Jesus fez. O Verbo fez-se homem em Jesus de Nazaré para revelar o nome do Pai e anunciar o Reino do seu amor. Esse amor sem limites Jesus fê-lo visível no mundo pecador por sua incondicional doação a todos os homens, sobretudo aos sofredores. Pois, a palavra escrita só se torna Palavra Viva, expressão do Verbo Divino, quando encarnada na realidade do povo, seguindo as opções concretas de Jesus.

            A nossa identidade de discípulos/as-missionários/as, a nossa identidade de cristãos, a partir do nosso batismo, brota desse exemplo do Verbo Encarnado, “que armou a sua tenda entre nós”. A fonte da espiritualidade de Jesus de Nazaré foi mais em sintonia com a espiritualidade do povo do “anawim”, do que com a visão centralizadora e legalista do Templo e dos escribas. Jesus descobriu a sua missão e a colocou em prática a partir da sua prática de diálogo - com o Pai, com o povo, com as escrituras e com a situação real sócio-político-religiosa dos moradores de Galileia. Ser cristão implica encarnar essa mesma prática em nossa obra evangelizadora, onde estivermos. Longe de termos a atitude dos escribas e fariseus, convencidos como eram de ter toda a verdade sobre Deus, temos que cultivar a atitude de Jesus em diálogo com o pobre, com pessoas de outras culturas e expressões religiosas - e em muitos lugares essas categorias serão quase que sinônimas.

            Temos o desafio de cultivarmos a espiritualidade da “tenda” mais do que do “Templo” - nem sempre fácil em uma Igreja cada vez mais clericalizada nas últimas décadas (uma situação combatida pelo Papa Francisco) e onde frequentemente a identidade dos leigos é relegada a um nível secundário. Com a atitude  do Verbo que se encarnou, é obrigação inerente na nossa identidade cristã viver em diálogo com todos, cultivando o respeito às experiências de Deus nas outras culturas e expressões religiosas, em uma atitude de verdadeiro diálogo, que não é uma atividade a mais, mas “uma atitude de “solidariedade, respeito e amor” (Gaudium et Spes 3), que deve permear todas as nossas atividades”.

 

 

Festa Da Sagrada Família (28.12.14)

Lc 2, 22-40

 

“Ele crescia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com ele”.

 

            O Evangelho da Festa da Sagrada Família, é tirado dos primeiros capítulos de Lucas.  Mais uma vez encontramos um tema muito importante para esse Evangelho – o encontro entre a Antiga e a Nova Aliança.  Durante Advento, Lucas fazia paralelo entre Isabel, Zacarias e João Batista, e Maria, José e Jesus.  No texto de hoje, os justos da Antiga Aliança são representados pelas figuras de Simeão e Ana, profeta e profetiza.  Outros dois temas de Lucas também se destacam nesse relato – o Espírito Santo e a opção pelos pobres.

            Lucas destaca que os pais de Jesus foram ao Templo conforme a Lei (cf. Lv 12,8), para oferecer o seu sacrifício – de dois pombinhos.  Na Lei, esse sacrifício era permitido aos pobres!  Mais uma vez, continuando a lição da manjedoura e dos pastores, Lucas sublinha o amor especial de Deus para os pobres.  Deixa bem claro que Maria, José e Jesus eram contados entre eles – como aliás, era toda a população do Nazaré de então!

Simeão e Ana representam, em quase os mesmos termos de Zacarias e Isabel, os justos que esperavam a salvação de Deus – o grupo conhecido no Antigo Testamento como os “anawim”, ou “pobres de Javé”.  É de notar que, no seu canto, Simeão proclama que ele pode “ir em paz” - simbolizando que as esperanças dos justos da Antiga Aliança agora serão realizadas em Jesus.  Como na visitação a idosa Isabel, símbolo também dos justos, acolhia com alegria a chegada de Maria com Jesus, agora Simeão e Ana recebem com a mesma alegria a novidade da Nova Aliança, concretizada em Jesus.  Mais uma vez Lucas coloca juntos homem e mulher, um tema comum nos seus escritos (cf. 4, 25-28; 4, 31-39; 7, 1-17; 7, 36-50; 23,55-24,35; At 16, 13-34).  Assim, Lucas insiste que o homem e a mulher se colocam juntos diante de Deus.  São iguais em dignidade e graça, recebem os mesmos dons e têm as mesmas responsabilidades.

            Como já fez em 2, 19 e fará de novo em 2, 50, Lucas frisa que os seus pais não entenderam plenamente ainda o alcance do mistério de Jesus. V. 33 insiste que “o pai e a mãe do menino estavam admirados do que se dizia dele”- mais uma vez nos apresentando José e especialmente Maria como modelos de fé. Apesar de qualquer revelação que eles tivessem, também tiveram que caminhar na escuridão da fé, descobrindo passo a passo o que significava ser discípulo de Jesus.

            Jesus “crescia e se fortalecia, cheio de sabedoria e o favor de Deus estava com ele”.  Mas esse crescimento foi  gradual, como com todos nós, e a sua família tinha um papel importantíssimo no seu crescimento.  Se, como adulto, ele podia nos dar a imagem de Deus como o amoroso Pai – tema tão caro a Lucas- era porque também aprendeu isso através da experiência do seu pai adotivo, José.  Se cresceu na espiritualidade dos anawim, era porque aprendeu isso desde o berço, junto com os seus pais.  Se foi fiel na busca da vontade de Deus, era porque assim se aprendia no ambiente familiar.  Em um mundo como nosso, que desvaloriza a vida familiar, o texto de hoje deve nos animar e desafiar, para que, como Maria e José, na claridade e na escuridão da caminhada, criemos um ambiente onde o amor possa florescer e onde os nossos jovens possam aprender,  como por osmose, a importância do amor nutrido em uma fé viva, na contramão da nossa sociedade consumista e materialista, que vê na família unida uma ameaça aos seus contra-valores.

            Ninguém ignora que hoje a família tradicional enfrenta enormes dificuldades.  Diante dos problemas, respostas fáceis não servem.  Nem sempre é óbvio o caminho a seguir.  Novas dificuldades e novas perguntas exigem um novo olhar da parte da Igreja.  Há pouco presenciamos algo – infelizmente - quase inédito na Igreja:– um Sínodo sobre a família onde todos os participantes eram convidados pelo Papa a expressar as suas opiniões abertamente e sem medo!  Como a Igreja precisava disso!  Houve divergências, obviamente, pois nem tudo é claro.  Há quem prefere ignorar a realidade, fechar os olhos diante de problemas reais que causam muitas vezes muito sofrimento no seio das famílias, e refugiar-se em chavões legalistas em lugar de procurar descobrir o que Jesus faria em tais situações.  O Espírito Santo vai iluminar a Igreja e as famílias se realmente buscarmos juntos as maneiras evangélicas a responder aos novos desafios. Rezemos pelas famílias, pelas que estão bem firmes e pelas desestruturadas, e rezemos pelo papa Francisco para que tenha a força e a saúde para continuar a sua grande missão como representante de Jesus, compassivo e misericordioso, nos nosso tempos.

 

Tomaz Hughes SVD

e-mail: thughes@netpar.com.be

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 






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